Espécie apreciada no panorama automóvel, os monovolumes de sete lugares têm vindo a perder terreno para os SUV com a mesma lotação.  A moda dita esta mudança, mas o mercado mantém opções muito racionais e versáteis para aqueles que continuam a ser a melhor forma de transportar a família e os amigos. Como se sai o renovado Citroën Grand C4 Picasso frente a Kia Carens e VW Touran? Um confronto com os motores mais adequados às carteiras lusas.

Num segmento que tem perdido fulgor por causa do desmesurado sucesso dos SUV, ainda há construtores que não deixaram de investir nos verdadeiros monovolumes de sete lugares. E ainda bem. Não há melhor solução para o transporte de sete ocupantes. Podem não ser a solução mais racional para excursões de norte a sul do país, mas para percursos mais curtos, estes sete lugares são perfeitos. O mote deste comparativo é a renovação do Grand C4 Picasso, que foi alvo de uma remodelação estética no final do ano de 2016. Mas há mais novidades. O VW Touran passa a incluir na gama o 1.6 TDI de 115 cv, deixando “cair” a variante de 110 cv. O terceiro elemento é o único MPV de sete lugares vindo da Coreia que é vendido em Portugal, a Kia Carens, que é mais uma (boa) solução neste mercado. Não será o carro perfeito, mas não é fácil apontar-lhe falhas graves, o que prova a evolução dos construtores coreanos. Os motores são os que os portugueses mais compram: 1.6 BlueHDI de 120 cv no francês, o já mencionado 1.6 TDI de 115 cv no alemão e o 1.7 CRDi de 141 cv no coreano. O primeiro surge acoplado à caixa automática da Aisin de seis velocidades, o segundo a uma caixa manual e o terceiro à caixa de dupla embraiagem de sete relações.

Diferenças conceptuais

Os tabliers de Citroën, Kia e Volkswagen não poderiam ser mais diferentes. O germânico é austero nas cores e conservador na disposição geral, tudo está onde é suposto e não há surpresas de última hora. O coreano segue o mesmo diapasão, mas os bancos em pele e os botões com um formato menos convencional dão lhe outro colorido. É chegar, ajustar o banco e arrancar, e no Kia é tudo ainda mais simples, já que o banco do condutor é elétrico e a caixa de comando automático. Em termos de espaço são ambos muito idênticos, contudo o modelo coreano é mais estreito e oferece um pouco menos de espaço para pernas atrás. Nos três, o acesso à segunda fila de bancos é facilitado pelas portas de grandes dimensões. Já na hora de nos sentarmos na terceira fila de bancos (nos três modelos são rebatíveis no piso), o Touran fica com um dos bancos laterais praticamente ao nível do piso, facilitando quem se queira “esgueirar” lá para trás. No Kia, só as costas dos bancos laterais da segunda fila se mexem, logo o acesso à terceira fileira exige um pouco mais de contorcionismo. No Volkswagen, a qualidade construção merece nota elevada, ainda que não se entendam os pilares A forrados a plástico, solução que o Golf, por exemplo, modelo com o qual partilha a plataforma, não tem. No Kia, este particular está num patamar inferior. A montagem é boa, mas os plásticos macios e agradáveis ao toque só existem na parte superior do tablier.  A nível de espaços de arrumação também se equiparam, mas o encosto de braços no coreano é demasiado elevado e obriga a levantar muito o cotovelo na hora de o repousar.

Por comparação com Touran e Carens, o Citroën é uma nave espacial que nem sequer precisa de chave, basta levá-la no bolso para que o carro reconheça o dono, destranque o fecho centralizado e ligue a ignição. A instrumentação digital está arrumada ao centro do tablier para lhe desafogar a vista e é em dose dupla, pois é possível ter a navegação no ecrã tátil da consola central e replicá-lo para o painel de instrumentos. De início, tudo isto é estranho, mas o tempo prova que o Grand C4 Picasso se torna intuitivo e o difícil mesmo é voltar a guiar um carro “normal”… A qualidade interior, que nem sempre tem sido um ponto forte nos carros franceses, neste Picasso não teme comparações com o rival alemão, as aplicações em pele dão-lhe um apreciável toque de charme e, chegada a hora de explorar as múltiplas soluções de versatilidade, o C4 mostra que a Citroën é perita em monovolumes. A terceira fila monta-se muito facilmente, a consola central amovível é imensa por dentro, e os locais de arrumação estão mais à mão.

Conforto familiar

A primeira coisa a notar na condução do Touran é a integridade dinâmica deste. As suspensões de curso aveludado q.b. preservam eficazmente a estabilidade e alguma aspereza de amortecimento é praticamente esbatida. De certa forma, não fosse a postura de condução elevada, até daria para esquecer que se está ao volante de um monovolume de sete lugares. A direção marca pontos pela precisão, a aderência é elevada e as curvas desenham-se de uma só vez, sem que se sintam eventuais interferências de um centro de gravidade mais alto, tornando o comportamento muito sereno em qualquer tipo de cenário, mesmo que as velocidades sejam pouco recomendáveis. A eficácia também está presente no Citroën, mas aqui é o conforto que surge enfatizado, com suspensões muito absorventes e bancos que são a inveja de muitos passageiros da aviação. Ainda assim, preferimos a forma como o 1.6 BlueHDI de 120 cv do Citroën se relaciona com o condutor, um motor mais solícito a baixo regime e explorado pela caixa automática de seis velocidades da Aisin que torna os arranques fluídos e que parece acelerar as recuperações. E a média de 5,8 l/100 km, continua a ser muito competitiva, a par com a do VW. A dinâmica não é tão “brilhante” como a do Touran, mas suplanta claramente a da Carens, a até o trabalho de insonorização do 1.6 BlueHDI de 120 cv está bem conseguido. Só é pena ter o eixo traseiro um pouco mais seco, “problema” congénito da plataforma EMP2.

Já o Kia, com a caixa de velocidades de dupla embraiagem, não se faz rogada e aproveita da melhor forma os 141 cv do 1.7 CRDi. Longe de ser dinâmico, peca por comandos menos precisos, principalmente a direção à qual nem os três modos disponíveis lhe valem. E a caixa aparenta ter algum arrasto no arranque, o que nem sempre é bom para “saídas” rápidas, e faz reduções demasiado bruscas no sentido de “criar” o efeito de travão motor. A partir daqui, evolui de forma consertada, com fluidez e celeridade. A dinâmica não é a mais assertiva e adorna mais que o desejado à saída das curvas. A jantes de 18” não ajudam no conforto. 

Vitória francesa

Este é mais um confronto com uma vitória conseguida pelo Grand C4 Picasso, e nova garantia de que o produto é bom, provavelmente o melhor Citroën do atual catálogo da marca. É um monovolume equilibrado, bem servido pela qualidade de construção, pelos consumos e prestações, ainda que o preço final não seja dos mais convidativos. O Touran surge em grande forma com o motor 1.6 TDI e consegue sobressair pela relação espaço/qualidade, e pela dinâmica mais apurada. O maior defeito acaba por ser o desempenho do motor nos regimes de rotação mais baixos e a relação preço/equipamento.

O Carens é o mais antigo dos três projetos. Tem a menor versatilidade e qualidade de condução, ainda que contraponha esse ponto menos positivos com um bom preço, uma garantia de sete anos e uma lista de equipamento muito completa de série.

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